Um Novo Normal? | Economia em Foco por Luiz Resende

18/11/2020 as 15:15


Você já se deparou nos últimos meses com várias publicações feitas através das mídias diversas sobre o “Novo Normal”, com várias afirmações prognosticando a mudança de comportamento da população mundial após a pandemia do COVID-19.

Provavelmente você já leu, ouviu, assistiu alguém dizendo que o mundo não será mais o mesmo.  As justificativas para essa previsão são as mais diversas possíveis, tais como: as pessoas mudarão seu comportamento, não se abraçarão mais, não irão mais a eventos onde haja multidões como jogos de futebol, shows. Viagens de turismo como cruzeiros estão com os dias contados. Até a Disney foi colocada em dúvida quanto a sua sobrevivência. 

Gurus, influenciadores digitais, artistas, “cientistas” até então desconhecidos viraram celebridades com suas previsões alarmantes e estapafúrdias, ganhando minutos de fama e seguidores nas redes sociais todos com previsões sobre  um mundo diferente a partir da pandemia.

Mas será  que estas mudanças realmente irão acontecer? O mundo mudará mesmo? Será que essa classe média e riquinhos continuarão ficando em casa cozinhando brócolis, passando aspirador na casa e postando nas redes sociais?

A primeira coisa que se pode extrair desse período é que você precisa separar situações de pessoas de diferentes classes sociais. Para aquele que em sua rotina ,consta sustentar uma casa e que teve que continuar trabalhando todos os dias, mudou muita coisa? Pergunta para ele.

Vivendo quase sempre em uma  casa com várias pessoas amontoadas  em poucos quartos, o que mudou a não ser  a obrigação de seguir determinadas regras absurdas, extravagantes “em nome da ciência” impostas por políticos exibicionistas, patológicos  ou que podemos chamar de “agentes imbecilizados de nosso tempo”, parafraseando o jornalista Andrew Amaurick.

Algumas mudanças de comportamento foram observadas em determinados segmentos da sociedade que vivem numa bolha. Podemos atribuir esse comportamento a essa nova era do exibicionismo digital que potencializou esse comportamento que a televisão já mostrava em seus programas artísticos em especial através das novelas. A ilusão de que se pode tudo, ser ou ter, essa realidade artificial, que foi consubstanciada pelas redes sociais, onde as pessoas transformam suas vidas em um Big Brother. Os efeitos do isolamento social e do pânico apregoado pela grande imprensa acabou causando nas pessoas ansiedade e angustia, aumentando o número de doenças e suicídios como consequência. 

Assistindo uma palestra do filósofo e professor Luiz Pondé no Youtube – A febre da Filosofia na Pandemia– Café Filosófico, onde ele, com sua inteligência e capacidade de analisar o mundo através da filosofia, aborda esse tema com profunda maestria. Nesta palestra ele cita um texto escrito e publicado em 1830 que carrega todas as características descritas nos dias em que estamos vivendo. Vamos ao texto:

“Todos os laços de apego são quebrados em todos os locais onde existam reclamações e medos; em nenhum lugar onde a alegria e esperança podem ser vistos. Desconfianças, ódio, charlatanismos e desprezo reinam em geral nas relações e são igualmente expressas na vida privada. Essa desordem é observada na política que nos divide. Em nome do poder e liberdade, nas ciências desprovidas de qualquer ligação mutua, na indústria onde tantos sacrifícios são oferecidos, no altar feroz da competição. E finalmente nas belas artes que tremulam em sua monotonia privadas de inspiração generosa. Em face dessa terrível  crise, questionamos essas pessoas desunidas, isoladas e fechadas em seu combate mutuo. Não terá chegado a hora de criar novos laços de amor, ensinamentos e criatividade; que as uniriam  e as inspirariam a agir pacificamente  de forma organizada e amorosa a serviço de todos e proporcionar à sociedade  e ao mundo todo o caráter de unidade, sabedoria e beleza?”  Texto publicado na Revista Enciclopédica – França  - 1830. Saint Simon (Filosofo – 1760-1825)


A crise daquele momento não era sanitária, mas política: A França estava vivendo a Revolução de 1830 sob a liderança do duque Luís Felipe, quando jornais, estudantes, burgueses e trabalhadores iniciaram manifestações e levantes que conduziriam a Revolução de 1830. “Por meio da intensa ação de populares que organizaram as chamadas “jornadas gloriosas”, o rei Carlos X abdicou o trono e buscou imediato exílio na Inglaterra.”

Vejam a semelhança do texto com a realidade atual, por motivos semelhantes, (crise) mas por causas diferentes. 
As pessoas têm tendência a achar que o que está acontecendo agora é um momento único e que a vida não será mais a mesma. Pondé nessa mesma palestra nos remete a Nietzsche –  na sua tese de O Eterno Retorno, onde a vida é descrita como “ Uma eterna ampulheta da existência que será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!“ 
O Eterno Retorno de Nietzsche defende a tese de que polos se alternam nas vivências numa eterna repetição. Criação e destruição, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio, tudo vai e tudo retorna.

Observem este outro texto escrito em 1919:

“A pandemia que acabou de acometer o mundo todo foi sem precedentes. Houve epidemias mais mortais mas elas foram mais circunscritas. Houve epidemias quase que generalizadas mas elas foram menos mortais. Inundações, fomes, terremotos, erupções vulcânicas escreveram suas histórias em termos de destruição humana quase terríveis demais para compreensão. Mas nunca antes houve uma catástrofe ao mesmo tempo tão rápida e tão devastadora e tão universal.
O mais surpreendente dessa pandemia foi o completo mistério que a cercava. Ninguém parecia saber o que era a doença, de onde vinha e como detê-la.  Mentes ansiosas continuam a se questionar hoje se ainda teremos uma segunda onda. O fato é que embora a gripe seja uma das mais antigas das doenças epidêmicas conhecidas, é a menos compreendida. A ciência que pelo trabalho paciente e meticuloso fez tanto para levar outras pragas ao ponto de extinção, até agora ficou impotente diante dessa. Há dúvidas sobre o agente causador e os fatores predisponentes e agravantes. Tem havido muita teorização sobre esses assuntos e boa pesquisa mas pouco consenso se alcançou a esse respeito”(Extraído do texto publicado em  30/05/1919 – Revista Science – The Lessons of the Pandemic- Major George A. Soper -Exercito Americano.)

Vejam a atualidade deste texto publicado em 1919 e suas discussões e dúvidas na época, com os dias de hoje. E o que mudou? Claro que algumas regras de saúde, como lavar as mãos, que na época não era um hábito, escovar os dentes, cuidados com a higiene da casa, foram incorporados aos hábitos cotidianos. No âmbito público houve uma maior preocupação com o cuidado com a saúde da população como saneamento básico e investimentos públicos em saúde. Em alguns países esse comportamento teve um efeito duradouro em outros, nem tanto.

Vamos voltar ao comportamento da população:  -  pouco tempo depois ninguém mais se lembrava da pandemia.

Como informação importante, lembramos que a Gripe Espanhola teve um ciclo médio entre Janeiro de 1918 a maio de 1919. Matou entre 30 a 40milhões de pessoas no mundo contaminando aproximadamente 500 milhões de pessoas. Composta por três ondas sendo a segunda, entre agosto e dezembro de 1918, considerada a mais terrível e concentrou a maioria das mortes. Em 1920 foram registrados pouquíssimos casos. Portanto durou pouco mais de um ano, vindo a desaparecer completamente nos anos seguintes. 

Um dado interessante sobre o ano de 1919:  No auge da pandemia, governantes proibiram a realização do carnaval. Vejam as manchetes dos jornais da época e tirem suas conclusões. Como podem comprovar,  as pessoas não respeitaram essas ordens e foram para as ruas. As fotos exibidas e as reportagens, mostram que o carnaval foi uma grande festa sendo reconhecido como tendo sido o melhor carnaval de todos os tempos já acontecido no Rio de Janeiro. 

“O Rio de Janeiro viu 15 mil de seus cidadãos serem mortos pela gripe em 1918, e no início do ano seguinte, quando o vírus já havia reduzido sua força, o intervalo para chorar os mortos foi também para a chegada da festa – e, conforme conta reportagem da Folha de São Paulo e do Jornal Gazeta de Notícias (foto manchete abaixo), quem viveu garante que o carnaval de 1919 foi o maior de todos os tempos.


Capa do jornal em 1918 © Biblioteca Nacional/Arquivo

Além do fim da primeira grande onda da gripe, o início de 1919 celebrava também o encerramento da primeira guerra mundial, e por isso motivos não faltavam para uma grande festa nas ruas cariocas. Se no ano anterior a cidade viu cadáveres se empilhando pelas calçadas e sendo recolhidos em caminhões de lixo, em 1919 o Rio foi tomado pelo carnaval – as escolas de samba ainda não existiam, mas o que se viu foi a multiplicação dos blocos, cordões, ranchos e das chamadas Grandes Sociedades, que desfilavam pelas ruas seus imensos carros alegóricos, muitas vezes feitos por artistas como Di Cavalcanti e J. Carlos.


Nunca é demais lembrar que a vacina para a gripe espanhola foi fabricada apenas em 1944. E a população continuou sua rotina com abraços, festas e apertos de mão como se nada tivesse acontecido. Poucos anos depois poucos lembravam, com exceção daqueles que perderam amigos e familiares, daqueles momentos terríveis causados pela pandemia.

Algumas marcas ficaram mais profundas na mente das pessoas, como aquelas que perderam parentes e amigos. Mas para o restante da população a rotina continuou. E a gripe espanhola hoje aparece na mente apenas daquelas poucas pessoas que viveram aquele período e que ainda estão vivos ou estudiosos do assunto.

Como em 1919, hábitos saudáveis de higiene deverão ser incorporados ao cotidiano como a forma correta de lavar as mãos, cuidados com a higiene, e quem sabe a incorporação do uso das máscaras, notadamente para aquelas pessoas que estiveram com resfriado e precisarem sair de suas residências, como já é comum nos países asiáticos, respeitando a individualidade do outro.
E na política, novamente promessas de melhorias na saúde pública virão, e como sempre, por aqui, ficarão nas promessas. A corrupção no desvio de verbas destinadas ao combate da pandemia, que já aparece em denúncias, é uma prova de que as coisas não devem mudar muito por aqui.