'O Salvador do Povo' | Economia Em Foco por Luiz Resende

15/07/2020 as 12:45


De dois em dois anos o Brasil vive o momento mais importante da democracia - as eleições. O eleitor se torna o personagem central, com direito a escolher seus representantes nas esferas de poder. Cresce a esperança de dias melhores, mas que logo se transformam mais uma vez em frustrações. 

E aí vêm eles novamente - os candidatos.  Com honrosas exceções, são os salvadores da pátria. Aparecem de dois em dois ou de quatro em quatro anos, com um discurso belo, repetitivo, às vezes cativante, fazendo de tudo para convencer o pobre eleitor de que deve continuar o seu “trabalho” de representante do povo. Candidatos que já têm a “política como profissão” se preparam para a reeleição. 

Momento para outros personagens que também sonham com a “profissão” de se envolverem nesta selva sem lei que é a política no Brasil. A esperteza, a esperança e a ilusão são os fatores que direcionam esse momento. 
Vale aí uma reflexão sobre a intimidade da forma de se fazer política e suas implicações. É quando ocorre a fase mais acentuada do populismo. Uma doença que corrói a sociedade e que vitimiza principalmente aquela parcela da população menos esclarecida  e mais dependente dos favores do estado. 

O populismo não deve ser confundido com rótulos de esquerda ou direita. São ações que surgem tanto de um lado quanto do outro. Em sua versão mais soft [suave], o populismo pode ser caracterizado como com um estilo de se fazer política com líderes carismáticos corajosos que olham para onde os políticos tradicionais deixaram de olhar, para o lado individual de pessoas que sofrem com as crises dos sistemas, muito além das grandes tipificações sociológicas. 

Em uma visão mais profunda e realista ficaremos com a definição do filósofo francês Pierre-André Taguieff onde o populismo se encarna na figura do salvador do povo, ou seja “a combinação do populismo retórico com o populismo carismático encarna-se na figura do demagogo ou do tribuno do povo, personagem que é, ao mesmo tempo, expressão, guia e salvador do povo, e que se apresenta com homem providencial e realizador de milagres – ou de um porvir maravilhoso”. “Trabalha somente para a sua causa pessoal, e, para isso, elabora um discurso em que aparece identificado com a causa do povo, é um demagogo que explora sistematicamente, no seu discurso, o ressentimento das massas contra as elites, sendo ainda um sedutor das massas populares, utilizando muito bem as mídias.”

Vamos citar exemplos de líderes em correntes ideológicas diferentes mas com métodos populistas semelhantes como Lula no Brasil, Chaves e  Maduro na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Macron na França, Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil e os Kirchner na Argentina.

Neste momento alguns indivíduos bem intencionados e que pretendem contribuir para mudanças na forma de fazer política e se apresentam como candidatos. Suas ideias e discursos são no sentido de combater o establishment, propondo fazer o oposto das práticas existentes. 

Conhecemos exemplos de empresários que se tornaram políticos à custa de muito dinheiro, e quando chegaram ao poder não conseguiriam sequer se aproximar das grandes rodas do poder, tornando-se meros números do chamado baixo clero, onde são utilizados apenas como massa de manobra dos líderes e caciques que já dominam e exercem poder nas grandes decisões.


Robert  Dahl, cientista político da Universidade Yale, argumenta que o desafio é mudar idéias na sociedade, de tal modo que o senso comum, as crenças e os valores predominantes sejam aqueles que favorecem a liberdade e a prosperidade. Essa tarefa não é fácil. Não serve muito ganhar eleições se uma mudança fundamental na mentalidade e na cultura de um país não for alcançada, porque os populistas de sempre retornam e destroem os avanços. A batalha pela cultura e pela consciência das pessoas é fundamental para qualquer projeto que vise oferecer esperança.

No livro de Glória Álvarez e Axel Kaiser – El Engaño Populista este assunto é bem ilustrado com o exemplo ocorrido na Inglaterra em meados da década de 1940. Um rico empresário chamado Sir Antony George Anson Fischer, lendo um artigo do professor de Economia da London School, F.A. Hayek, em uma revista mostrando os riscos do avanço das ideias socialistas na economia inglesa e como isso poderia impactar nas liberdades econômicas trazendo consequentemente a destruição de todas as liberdades. Fischer sabia que a Inglaterra alcançou todo sucesso e  sua hegemonia econômica no mundo exatamente tendo como base a filosofia libertária enraizada especialmente no mundo anglo-saxão.

Impressionado com a mensagem do texto, Sir Antony Fischer procurou Hayek dizendo que tinha ficado muito preocupado com o que ele estava dizendo e informou ao professor que estava pensando em entrar para a política para fazer algo a respeito e impedir o avanço do socialismo em seu país. Surpreendentemente Hayek disse para ele não perder tempo, porque os políticos não eram líderes, mas seguidores das idéias que estavam em moda. Se ele queria mudar alguma coisa – aconselhou Hayek – ele deveria financiar os intelectuais para que suas ideias se tornassem populares, utilizando as mesmas armas da filosofia gramsciana, na batalha pelo domínio da cultura e pela consciência das pessoas.

“Gramsci entendeu que o poder das classes dominantes não só é exercido através de instrumentos coercitivos mas também através do controle do sistema educacional, da religião e dos meios de comunicação, e que, portanto, a cultura é o terreno crucial para a luta política.” – Thomas Bates – Gramsci and the Theory of Hegemony.

Hayek então convenceu Sir Fischer a utilizar essas mesmas armas. Segundo o próprio Fischer “se eu compartia a visão de que as melhores ideias não estavam recebendo uma oportunidade justa, seu conselho foi que eu deveria me juntar com outros para formar uma organização de pesquisa acadêmica para fornecer aos intelectuais de universidades, escolas, jornalismo e difusão de estudos autorizados da teoria econômica dos mercados e sua aplicação a questões práticas.”

Foi assim que Sir Fischer decidiu fundar o Institute of Economic Affair (IEA), instituição muito viva e ativa e de alto nível acadêmico, a partir de ideias e através de pesquisas. Assim, começou a influenciar o clima de opinião intelectual na Inglaterra. A influência que o IEA teve foi tão gigantesca que Margareth Thatcher deve a sua eleição como primeira ministra, em grande medida, ao trabalho do instituto e cujo trabalho conseguiu mudar as ideias dominantes na sociedade e na intelectualidade britânicas.

E Fischer continuou sua luta pela disseminação das ideias liberais criando muitos outros institutos (denominados Think tank) pelo mundo, além da Atlas Network.

Essa é a lição de que pessoas inconformadas com as formas de condução da política vigente e interessadas em procurar mudanças não devem trilhar o caminho da candidatura, entrando na política. Velhas raposas estarão a postos para aniquilar suas aspirações e fazer o possível para deixá-lo no mais obscuro lugar dentro da estrutura vigente.

O caminho foi sinalizado pelo professor Hayek. Para alcançar o objetivo de mudanças é necessário tomar posições em universidades, escolas e mídia, escrever textos acadêmicos e de divulgação, ganhar espaço nas mídias, entrar em igrejas e muito mais. Utilizar as mesmas armas de controle do pensamento, utilizados pela esquerda progressista, procurando formas de disseminação de suas ideias.

Não caia na armadilha de achar que, eleito, conseguirá mudar alguma coisa. O inimigo é poderoso.

Luiz Resende, Economista e Colunista para o portal da Rádio 98 FM